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série arquitetura organizacional, não modismo de RH · 05/12

Mobilidade interna: por que plano de carreira não basta

Por Bruna Olivera · · 8 min de leitura

escada

Cada passo é para cima, dentro da mesma área. Quando os degraus acabam, crescer vira sair.

rede

Para cima, para o lado, entre áreas e por projeto. Conta como crescimento o que amplia escopo e capabilities.

Carreira em escada e carreira em rede.

Quase toda empresa diz que valoriza o crescimento interno. Muitas têm plano de carreira, trilhas desenhadas e uma política que prioriza candidatos internos. Ainda assim, quando surge uma vaga relevante, a busca começa no mercado.

Não é falta de intenção. É falta de condições para que alguém, de fato, consiga se mover.

Este artigo abre o quarto pilar da série. A hipótese é que mobilidade interna não é um programa de RH. É uma consequência da arquitetura: de como os cargos são nivelados, de como as capabilities são descritas e do que a organização recompensa.

O paradoxo: pagar mais para receber menos

Matthew Bidwell, professor da Wharton, analisou os dados de pessoal da divisão de banco de investimento de uma instituição financeira americana entre 2003 e 2009. Ele comparou pessoas contratadas de fora com pessoas promovidas internamente para posições semelhantes (Bidwell, 2011).

Os contratados externos ganhavam de 18% a 20% a mais. E, nos dois primeiros anos, tinham avaliações de desempenho mais baixas e maior probabilidade de sair. Os que ficavam eram promovidos mais rápido depois, o que mostra que o quadro não é simples. Mas, no período inicial, a empresa pagava mais por alguém que entregava menos do que quem já estava dentro.

É um setor específico, num país específico, e o resultado não deve ser lido como regra universal. O padrão, porém, é reconhecível em muitas empresas: a contratação externa parece mais segura, mesmo quando custa mais.

Por que o que está fora parece mais legível

Uma explicação possível para o paradoxo é a legibilidade. O candidato externo chega organizado: currículo, títulos, experiências em ordem, entrevistas estruturadas, referências. É fácil comparar.

A capacidade interna está espalhada. Parte dela está em avaliações de desempenho, parte em projetos que ninguém documentou, parte na memória de cada gestor. Quem abre a vaga muitas vezes não sabe quem, em outra área, já faz um trabalho parecido.

Quando a informação interna é mais difícil de ler do que a externa, a decisão tende a ir para fora. Não por preferência, mas por falta de visibilidade.

Plano de carreira não é mobilidade

É comum tratar plano de carreira e mobilidade como sinônimos. Não são.

O plano de carreira descreve caminhos possíveis, geralmente para cima e dentro da mesma área. A mobilidade é a capacidade real de alguém se mover: para cima, para o lado, para outra área ou para um projeto. Uma empresa pode ter trilhas bem desenhadas e quase nenhum movimento acontecendo.

O segundo sintoma descrito no manifesto da série era exatamente esse: o plano de carreira existe, mas ninguém sabe navegar por ele. As trilhas não dizem o que diferencia um nível do outro, nem quais movimentos laterais são possíveis. Quem quer crescer descobre que o caminho mais claro é a porta de saída.

Três condições para que alguém consiga se mover

Para que um movimento interno aconteça com alguma regularidade, três condições precisam existir. Cada uma corresponde a um pilar anterior da série.

1. Níveis comparáveis. Sem níveis definidos por critérios comuns entre áreas, ninguém sabe se a mudança de um analista de operações para uma vaga em finanças é lateral, promoção ou rebaixamento. A dúvida trava o movimento antes de ele começar. Essa é a contribuição da arquitetura de cargos, tema do artigo 03.

2. Capabilities explícitas. Sem uma descrição clara do que cada papel exige, não há como saber quem já tem capacidades adjacentes à vaga aberta. A pessoa certa pode estar a duas mesas de distância, sem que ninguém perceba. Essa é a contribuição da conexão entre skills e capabilities, tema do artigo 04.

3. Regras de movimento. Sem regras, cada movimento vira uma negociação caso a caso. As perguntas se repetem toda vez: quem é elegível, depois de quanto tempo no cargo, quem precisa aprovar, o gestor atual pode vetar, o que acontece com o salário, a vaga é anunciada internamente antes de ir para o mercado? Responder a essas perguntas uma vez, por escrito, remove boa parte do atrito.

O próprio estudo de Bidwell traz um detalhe útil para essas regras: pessoas que foram promovidas e mudaram de área ao mesmo tempo tiveram desempenho pior do que os outros movimentos internos (Bidwell, 2011). Subir de nível e trocar de contexto no mesmo passo é um movimento mais arriscado, e as regras podem tratar esse caso com mais apoio ou em etapas.

Quando as três condições existem, um plano de carreira deixa de ser um documento e passa a ser um mapa que as pessoas conseguem usar.

Escada ou rede

O modelo tradicional de carreira é uma escada: cada passo é para cima, dentro da própria área. Ele funciona enquanto há degraus disponíveis. Em estruturas mais enxutas, os degraus acabam rápido, e a única forma de crescer passa a ser sair.

Uma alternativa é pensar a carreira como uma rede. Movimentos laterais, entre áreas e por projeto também contam como crescimento, desde que ampliem o escopo, a complexidade ou as capabilities de quem se move.

Há indícios de que isso faz diferença para a retenção. Segundo dados do LinkedIn apresentados no relatório Global Talent Trends de 2022, depois de dois anos, quem fez um movimento interno tinha 75% de probabilidade de continuar na empresa, contra 56% de quem não fez (LinkedIn, 2022).

Vale a mesma cautela de sempre. É uma correlação. Pessoas mais engajadas podem ser justamente as que buscam e conseguem movimentos internos. Mas, mesmo com essa ressalva, o dado sugere que a mobilidade e a permanência andam juntas.

O obstáculo silencioso: o que a organização recompensa

Existe um obstáculo à mobilidade que não aparece em nenhum plano de carreira: o incentivo do gestor.

Se o gestor é avaliado apenas pelo resultado da própria equipe, liberar uma pessoa boa para outra área é prejuízo para ele. Ele perde capacidade de entrega, precisa repor a vaga e treinar alguém novo. A decisão racional, do ponto de vista dele, é segurar a pessoa.

Esse é o Star Model de Galbraith, discutido no artigo 02, aparecendo de novo. Mudar a estrutura de carreira sem mudar as recompensas mantém o comportamento antigo. Algumas empresas passam a reconhecer gestores que formam pessoas para o resto da organização, tratando a saída interna de um bom profissional como resultado, e não como perda.

Mobilidade, portanto, não depende só de oportunidade. Depende também do que a organização mede e recompensa.

Cinco perguntas para um diagnóstico rápido

Antes de lançar um programa de mobilidade, vale responder com honestidade a cinco perguntas. Elas mostram se a empresa tem mobilidade ou apenas um plano de carreira no papel:

  1. Uma pessoa consegue descobrir, sem perguntar ao gestor, quais vagas internas estão abertas e em que nível estão?
  2. Quando alguém muda de área, todos entendem se foi um movimento lateral, uma promoção ou um rebaixamento?
  3. Existe alguma descrição, ainda que simples, do que um papel exige além do título e da formação?
  4. O gestor atual pode bloquear um movimento sem precisar justificar a decisão?
  5. Algum gestor já foi reconhecido por ter formado alguém que foi crescer em outra área?

Se a maioria das respostas for "não", o problema não está no plano de carreira. Está na arquitetura que deveria sustentá-lo. E nenhuma campanha de comunicação sobre crescimento interno resolve a ausência dessas peças.

Por onde começar

Para uma empresa que quer sair do discurso e ver movimentos acontecendo, quatro passos ajudam:

  1. Escreva as regras de movimento, mesmo que simples: elegibilidade, aprovação, tratamento salarial e prazo de anúncio interno.
  2. Torne as vagas visíveis internamente antes de abri-las ao mercado, com nível e requisitos explícitos.
  3. Revise como os gestores são avaliados, incluindo alguma forma de reconhecer quem forma pessoas para outras áreas.
  4. Comece a medir. Sem números, a mobilidade continua sendo uma intenção. O artigo 10 da série vai tratar dos indicadores mais úteis para isso.

Perguntas frequentes

O que é mobilidade interna?

É a movimentação de pessoas dentro da própria empresa, para cima, para o lado, entre áreas ou para projetos. Inclui promoções, mas não se limita a elas.

Qual a diferença entre plano de carreira e mobilidade interna?

O plano de carreira descreve caminhos possíveis. A mobilidade interna é o movimento que de fato acontece. Uma empresa pode ter plano de carreira e quase nenhuma mobilidade, se faltarem níveis comparáveis, capabilities explícitas e regras claras.

O que é carreira em rede?

É um modelo em que movimentos laterais, entre áreas e por projeto também contam como crescimento, desde que ampliem escopo, complexidade ou capabilities. Contrasta com a carreira em escada, em que só o movimento para cima conta.

Mobilidade interna ajuda na retenção?

Os dados indicam associação. Segundo o LinkedIn, quem fez um movimento interno tinha mais probabilidade de continuar na empresa depois de dois anos. A relação é de correlação, não de causa comprovada.

Próximo artigo

O próximo texto fecha a primeira volta da série com o quinto pilar: o que o relatório de transparência salarial consegue explicar, o que ele não consegue, e por que a resposta depende de uma arquitetura de cargos.

Referências

  1. BIDWELL, M. Paying more to get less: the effects of external hiring versus internal mobility. Administrative Science Quarterly, v. 56, n. 3, p. 369-407, 2011. Resumo em: repository.upenn.edu.
  2. KNOWLEDGE AT WHARTON. Why external hires get paid more, and perform worse, than internal staff. Philadelphia: Wharton School, 2012. Disponível em: knowledge.wharton.upenn.edu.
  3. LINKEDIN. Global talent trends 2022. Apresentado no Talent Connect, out. 2022. Disponível em: news.linkedin.com.
  4. GALBRAITH, J. R. Designing organizations: an executive guide to strategy, structure, and process. San Francisco: Jossey-Bass, 2002.