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Carreira em Y: como reconhecer especialistas sem transformá-los em gestores

Por Caio Bassi Olhier · · 7 min de leitura

Uma empresa de tecnologia tem a melhor engenheira de dados da sua história. Ela resolve os problemas que ninguém resolve, ensina quem está chegando e conhece o sistema como ninguém. Para ganhar mais, existe um caminho: virar gestora.

Seis meses depois, a empresa tem uma gestora que passa o dia em reuniões e perdeu a especialista que sustentava a área. Quando a única forma de crescer é gerir pessoas, a estrutura empurra especialistas para a liderança como prêmio, e não como escolha.

A carreira em Y nasceu para resolver isso. Mas ela só funciona quando a trilha técnica tem níveis definidos com o mesmo rigor, e a mesma remuneração, dos níveis de gestão.

O que é carreira em Y

Carreira em Y é um modelo de plano de carreira em que, a partir de certo nível, a trajetória se divide em duas trilhas: gestão de pessoas e especialista. As duas têm reconhecimento e faixas salariais equivalentes. O desenho lembra a letra Y: um tronco comum no início da carreira e dois braços que sobem em paralelo.

Na literatura internacional, o modelo aparece como dual ladder, a escada dupla. Ele foi estudado sobretudo em pesquisa e desenvolvimento, onde perder bons técnicos para a gestão sempre custou caro (Allen; Katz, 1986).

Carreira em Y, em W ou em rede

ModeloComo funcionaQuando faz sentido
Carreira em YDuas trilhas paralelas a partir de certo nível: gestão e especialistaEmpresas que precisam reter especialistas sem empurrá-los para a gestão
Carreira em WAcrescenta uma terceira via: liderança de projetos ou papel consultivo, sem equipe diretaEmpresas organizadas por projetos, como tecnologia, engenharia e consultorias
Carreira em rede (lattice)Movimentos para cima, para os lados e na diagonal, entre áreasEmpresas com demanda que muda rápido e arquitetura de cargos madura

O nome carreira em W varia entre autores. A ideia de uma terceira trilha, por projetos, aparece nos estudos de Allen e Katz com engenheiros e cientistas (Allen; Katz, 1991). Muitas empresas combinam modelos, como Y na maior parte das áreas e W em tecnologia.

Por que promover o melhor técnico pode dar errado

A ideia de que as pessoas sobem até o nível em que deixam de ser competentes ficou conhecida como Princípio de Peter. O livro original, de 1969, é um ensaio satírico, não uma pesquisa (Peter; Hull, 1969).

A evidência veio depois. Alan Benson, Danielle Li e Kelly Shue analisaram dados de vendedores em 131 empresas. Elas davam mais peso ao desempenho em vendas na hora de promover do que a outras características que previam melhor o desempenho como gestor, e o custo de promover pessoas com menos potencial de gestão foi estimado como alto (Benson; Li; Shue, 2019).

A conclusão não é que bons técnicos sejam maus gestores. É que desempenho no cargo atual e potencial de gestão são coisas diferentes. Uma estrutura com uma única porta de crescimento obriga a empresa a confundir as duas.

Quando a trilha técnica vira prêmio de consolação

Muitas empresas já têm uma carreira em Y no papel. O problema é o que acontece na prática. Thomas Allen e Ralph Katz discutiram, a partir de P&D, como a escada dupla perde credibilidade quando a trilha técnica é vista como prêmio de consolação para quem não chegou à gestão (Allen; Katz, 1986).

Três sinais de que isso está acontecendo:

  • O último nível técnico paga menos que o primeiro nível de gestão.
  • Especialistas seniores não participam das decisões técnicas importantes.
  • A trilha técnica tem um ou dois níveis, enquanto a de gestão tem cinco.

Como definir níveis técnicos com o mesmo rigor da gestão

Elliott Jaques propôs que os níveis de uma organização sejam definidos pela complexidade do trabalho e pelo horizonte das decisões, e não pelo número de pessoas lideradas (Jaques, 1989). É esse critério que permite comparar um especialista com um gestor.

Na prática, cada nível técnico precisa responder às mesmas perguntas dos níveis de gestão:

  • Escopo: o trabalho afeta uma tarefa, um time, uma área ou a empresa?
  • Complexidade: os problemas têm resposta conhecida ou exigem criar soluções novas?
  • Horizonte: as decisões têm efeito em semanas, meses ou anos?
  • Influência: quem muda de ideia por causa do trabalho dessa pessoa?

Com esses critérios, um especialista que define a arquitetura de dados da empresa pode estar no mesmo nível de um gerente de área e receber na mesma faixa. É o mesmo problema discutido no artigo sobre arquitetura de cargos: quando os níveis não têm critério, o título faz o trabalho da estrutura.

Exemplo de carreira em Y

NívelTrilha de gestãoTrilha de especialistaCritério comum
4CoordenaçãoEspecialistaResponde por resultados de um time ou de um tema técnico
5GerênciaEspecialista sêniorDefine prioridades de uma área ou de um domínio técnico, com horizonte de um ano
6DiretoriaEspecialista principalInfluencia decisões da empresa, com horizonte de vários anos

Até o nível 3, analista júnior, pleno e sênior formam o tronco comum. O exemplo é ilustrativo: o número de níveis e os nomes mudam com o porte e o setor. O que não muda é a regra: mesmo nível, mesma faixa salarial, critério escrito.

Como a remuneração acompanha as duas trilhas

A forma mais simples de manter a equivalência é definir as faixas salariais por nível, e não por trilha. Um especialista sênior e um gerente no nível 5 ficam na mesma faixa. O que pode variar é a composição: a remuneração variável do gestor tende a olhar o resultado do time, e a do especialista, o impacto técnico das suas entregas.

Dois cuidados evitam que a trilha técnica perca valor. O primeiro é não reservar benefícios, gratificações ou títulos só para quem lidera pessoas. O segundo é revisar as faixas das duas trilhas ao mesmo tempo, com a mesma pesquisa de mercado. A análise de igualdade salarial também fica mais simples quando os níveis valem para as duas trilhas.

Quando a carreira em Y não resolve

A carreira em Y não substitui uma estrutura de cargos. Se a empresa ainda não tem níveis definidos, criar duas trilhas multiplica a confusão. Também não resolve o problema de quem foi promovido a gestor por tempo de casa, sem preparo: isso pede critérios de promoção e formação de líderes.

E há empresas em que ela simplesmente não é necessária. Se quase todo o trabalho técnico é padronizado e poucos especialistas são difíceis de repor, uma trilha única com níveis bem escritos costuma bastar.

Como implantar uma carreira em Y em cinco passos

  1. Comece pela arquitetura. Sem níveis definidos por critério, não há como dizer que dois cargos de trilhas diferentes são equivalentes.
  2. Defina onde o Y se abre. Normalmente depois do nível sênior, quando a pessoa já domina o trabalho e a escolha entre gerir e aprofundar faz sentido.
  3. Escreva os critérios de cada nível técnico. Escopo, complexidade, horizonte e influência, com exemplos de entregas esperadas.
  4. Conecte à remuneração. Faixas equivalentes entre as trilhas no mesmo nível. Sem isso, a trilha técnica vira discurso.
  5. Permita voltar. Quem foi para a gestão e não se adaptou precisa de um caminho de volta para a trilha técnica, sem rebaixamento simbólico.

Depois de implantada, a trilha precisa ser acompanhada. Os indicadores de mobilidade interna mostram se as pessoas de fato se movem pelas duas trilhas ou se o Y existe só no documento.

Perguntas frequentes

O que é carreira em Y?

É um modelo de plano de carreira em que, a partir de certo nível, a trajetória se divide em duas trilhas com reconhecimento e salário equivalentes: gestão de pessoas e especialista.

Qual a diferença entre carreira em Y e carreira em W?

A carreira em Y tem duas trilhas, gestão e especialista. A carreira em W acrescenta uma terceira, normalmente de liderança de projetos ou de papel consultivo, sem equipe direta.

Carreira em Y funciona em empresa pequena?

Funciona quando há especialistas difíceis de repor. Com poucos níveis, uma trilha técnica de dois degraus bem definidos costuma bastar.

Especialista e gestor do mesmo nível devem ganhar o mesmo?

Devem estar na mesma faixa salarial. Dentro da faixa, a posição de cada pessoa depende de desempenho, experiência e mercado.

Referências

  1. ALLEN, T. J.; KATZ, R. The dual ladder: motivational solution or managerial delusion? R&D Management, v. 16, n. 2, p. 185-197, 1986.
  2. ALLEN, T. J.; KATZ, R. The treble ladder revisited: why do engineers lose interest in the dual ladder as they grow older? International Journal of Vehicle Design, v. 12, n. 5-6, p. 478-488, 1991.
  3. BENSON, A.; LI, D.; SHUE, K. Promotions and the Peter principle. The Quarterly Journal of Economics, v. 134, n. 4, 2019. DOI: 10.1093/qje/qjz022. Disponível em: dspace.mit.edu.
  4. JAQUES, E. Requisite organization: the CEO's guide to creative structure and leadership. Arlington: Cason Hall, 1989.
  5. PETER, L. J.; HULL, R. The Peter principle: why things always go wrong. New York: William Morrow, 1969.

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